sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Garcia Lorca
Amor de minhas entranhas,morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal.
A pedra inerte
nem conhece a sombra
nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri.
Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Guida Linhares
Ao som de um bolero, me deixei levaraté onde está o teu inquieto coração!
Fechei meus olhos e pensamentos a bailar
voaram para longe, com toda a emoção.
Já não tenho tanta pressa de te ver,
porque sei que queres um amor maduro.
Aquele que quando chega é todo um bem querer,
que nos leva entre as ondas do prazer seguro.
Há todo um mistério nas coisas do céu e da terra,
que por mais que se tente entender a razão,
que uma aproximação entre duas criaturas encerra,
não se chega exatamente ao âmago da questão.
Apenas o sublime sentimento nos move ao encontro,
ao desejo de ver o outro, estar em contato, perceber
que há um coração que bate forte, até ficar pronto,
para vivenciar o êxtase de um momento lindo de viver.
Chico Buarque
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai
O meu amor
Que rouba os meus sentidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Meu corpo é testemunha
Clarice Lispector
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos,a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca
e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta:
eles respiravam de antemão o ar que estava à frente,
e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo,
falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez
que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam,
e ao toque a sede é a graça,
mas as águas são uma beleza de escuras
e ao toque brilhava o brilho da água deles,
a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Banda Catedral
Sobre o amor e o desamor, sobre a paixão,Sobre ficar, sobre desejar, como saber te amar,
Sobre querer, sobre entender, sem esquecer,
Sobre a verdade e a ilusão,
Quem afinal é você,
Quem de nós vai mostrar realmente o que quer,
Um coração nesse furacão, ilhado onde estiver,
O meu querer é complicado demais,
Quero o que não se pode explicar aos normais,
Sobre o porque de tantos porquês,
E responder
Entre a razão e a emoção eu escolhi você!
Deixe que eu te faça
Um pouco feliz
Mesmo que a distância lhe provoque medos
Tenho um segredo para te contar
O meu coração está apaixonado
Deixa que eu te olhe meio assim de lado
de um jeito descuidado, um pouco relaxado
Mas sempre interessado no teu bem querer
E aí! Não precisa olhar pro mapa não
O Japão é aqui
Pra quem ama não tem essa não
Me dê sua mão e escuta o meu silêncio.
Miguel Torga
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Caio Fernando Abreu
domingo, 26 de outubro de 2008
Joaquim Pessoa
Como se o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Mariza Lourenço
Adriano Hungaro
Poemas MurmuradosMe deixa ouvir sua voz mais uma vez
Eu quero ouvir sua voz e os seus gemidos
Com poemas murmurados de suplícios
Com poemas de amor em meus ouvidos
Me deixa ouvir sua voz mais uma vez
Eu quero renovar os meus sentidos
Pois ouvindo a sua voz mais uma vez
Afasto a dor do tédio que é comigo
Me conte os teus poemas sussurrados
Poemas que são tão apaixonados
Poemas para a minha noite em claro
Poemas que me deixam estonteado
Poemas murmurados em meus ouvidos
Poemas de amor aos meus sentidos...
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Caio Fernando Abreu
Ficaram se olhando.Completamente dourados, olhos úmidos.
Seria a brisa?
Verão pleno solto lá fora.
Bem perto dela, ele perguntou:
- O quê?
Ela disse:
- Sim.
Puxou-o pela cintura, ainda mais perto.
Ele disse:
- Você parece mel.
Ela disse:
- E você, um girassol.
Estenderam as mãos um para o outro.
No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro.
Affonso Romano de Sant´Anna
Deixa que eu te ame em silêncioNão pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele falem seus líquidos desejos.
Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discurso
de impronunciáveis emoções.
Florbela Espanca
Escreve-meEscreve-me!
Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto daçucenas!
Escreve-me!
Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
Carlos Drummond de Andrade
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
António Gedeão
Pensar em TiPensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de louça
que apenas como o pensar te pudesses partir.
Cáh Morandi
e isso não é certo, isso não é bom
o reflexo bate em mim
fico assim, quase cega
de te procurar, ver você radiar
e você quase vira uma estrela
em plena manhã de sexta-feira
no meu quarto escuro
risos e absurdos
você que brilha,
você que me faz brilhar
isso não é certo,
você sair pelas ruas
andando sem pressa alguma
enquanto fico na loucura
de tanta gente te fitar
você que é tão bonito de olhar
essa multidão que te cerca
mas você é a coisa mais certa
aonde quero chegar
você que apaixona,
você que me faz apaixonar
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
sábado, 11 de outubro de 2008
Caio Fernando Abreu
"...sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus...como você me doía! De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme...só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!!" Felicidade
Se ele pudesse,chamaria todas as árvores e todos os pássaros
para que o ouvissem,
conversaria com o Dia e conversaria com a Noite,
e casaria o Sol com a Terra,
e pediria ao mar suas espumas
ao espaço as suas brumas,
às árvores suas flores
ao céu as suas estrelas
para tecer o imenso véu...
E pediria ao mundo um pouco de silêncio
e pediria ao céu que descesse um pouquinho
do céu...
J. G. de Araújo Jorge
In: "Amo!"
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Affonso Romano de Sant'Anna
Gilka Machado

No Quiero
Te quiero presente.
No quiero que seas sólo una idea.
No quiero verte sólo en mi alma.
Quiero verte con mis ojos;
Quiero el placer de la visión.
Actual.
No quiero que llenes
un espacio lejano,
Quiero que llenes el lugar
que hay frente a mí.
Te quiero inmediata,
tal como eres en este instante.
No sólo como lo fuiste,
o como lo que seras.
Te quiero actuando
directamente sobre mis sentidos.
Accidental,momentanea y eterna.
Fluyendo.
No quiero sólo tu belleza
íntima y esencial.
Quiero también la superficie
de tu materialidad.
Te quiero sobre
las olas del tiempo.
No te quiero sólo como
posibilidad poética.
Te quiero también como poesía en acto.
Que seas placer y dolor corporal.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Adriano Hungaro
Pode ser que tudo é vão
Pode ser que o nosso encontro
Pode ser que seja isto
sábado, 4 de outubro de 2008
Clarice Lispector
Letícia Thompson
Bonitas são as coisas vindas do interior,
as palavras simples, sinceras e significativas.
Bonito é o sorriso que vem de dentro, o brilho dos olhos...
ou as noites enluaradas de verão em que todos saem de casa.
Bonito é procurar estrelas no céu e dar de presente ao amigo, amiga, namorado...
Bonito é achar a poesia do vento, das flores e das crianças.
Bonito é chorar quando se sentir vontade e deixar que as lágrimas rolem sem vergonha ou medo de crítica.
Bonito é gostar da vida e viver do sonho.
Bonito é ser realista sem ser cruel, é acreditar na beleza de todas as coisas.
Bonito é a gente continuar sendo gente em quaisquer situacões.
Bonito é você ser você!
Angela Moura
Desatando os Nós...Que tal a gente tomar coragem para desatar os nós que amarram nossas vidas?
Hábitos são verdadeiros " nós cegos "...
Atrás dos hábitos se escondem nossas verdadeiras carências afetivas.
E os hábitos que foram criados para compensá-las, acabam por nos impedir de que as enxerguemos com clareza. Que nó danado!!!
Aí, a pessoa se apressa, faz aquele regime maluco e consegue perder até a alma ...
ou pára de fumar aqueles três maços de cigarros do dia,
ou de beber a dose da noite ... até se afasta daquela pessoa que só traz dores de cabeça...
Que maravilha !!!
...Mas, passado um tempo, volta tudo a ser como antes...
E o nó vai ficando pior ainda, né?
De tudo que tenho visto, o mais interessante e simples a seguir é a receita:
* É fácil... Acordar cantando...(não vale chorar nem acordar a casa toda, né? ).
* Espreguiçar-se muito, antes de se levantar da cama...
* Pegar todo dia o solzinho da manhã, de preferência, acordando mais cedo para uma caminhada sem pressa...
* Mostrar que quem a gente ama é muito importante para nós...
* Pedir colinho, sempre que possível (às vezes, a gente tem que dar também).
* Beber muita água e fazer muito "xixi"
* Confiar e amar quem a gente ama, cada vez mais...
* Ignorar todos os chatos que não gostam de criança, de flor,
* Dar atenção a todos que se aproximam de nós, mesmo a quem acabamos de conhecer.
* Adorar ouvir o que as pessoas (que a gente ama) falam e respeitar o que fazem...
* Sorrir para todos e para a gente mesmo...
* E rir, rir, mas rir muito,sempre que não tiver motivo para chorar...
Quer experimentar ?!? Depois de um tempo, você vai esquecer...
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Maria Tereza Horta
demorado
no topo do teu joelho
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarse
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Olavo Bilac
Mais abaixo
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem,
quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem!
- disse ela, louca.
Moralistas, perdoai! Obedeci...



























